Com mais de duas décadas de história, as Lúmbias são hoje um dos grupos mais emblemáticos do Carnaval de Torres Vedras. Entre tradição, humor e um forte espírito de união, este grupo carnavalesco mantém viva a figura da Matrafona e a essência da folia torriense, atravessando gerações e conquistando cada vez mais participantes. Nesta entrevista, ficamos a conhecer a origem do grupo, as suas tradições, histórias marcantes e a importância do Carnaval na identidade cultural da cidade.
Como surgiu este grupo carnavalesco e o nome Lúmbias?
Tudo começou numa escapadinha de amigos para assistir à Queima das Fitas, em Coimbra, momento em que nasceu a ideia que viria a dar origem às Lúmbias.
Atualmente, o grupo conta com mais de 25 anos de folia constante e crescente. Em 1998, era composto por cerca de 40 elementos, hoje carinhosamente chamados de Fundadores, e atualmente reúne aproximadamente 116 elementos distribuídos pelas várias categorias de sócios.
O nome Lúmbias surgiu de uma expressão utilizada de forma “carinhosa” por alguns elementos para se referirem a loiras associadas à chamada “profissão mais antiga do mundo”. Fazendo jus à peruca loira, símbolo incontornável do grupo, o nome acabou por ser adotado por unanimidade.
Existem tradições ou costumes específicos da associação que se mantêm até hoje?
Sim, são várias as tradições que acompanham o grupo desde a sua fundação.
As Lúmbias são constituídas exclusivamente por homens, uma decisão inicial que se mantém até hoje nos estatutos e que tem como objetivo preservar a imagem da Matrafona no Carnaval de Torres Vedras.
Todos os anos, os elementos assumem esse papel com orgulho, utilizando uma máscara cuidadosamente escolhida e confecionada ao detalhe para os dias de Carnaval. Cada edição apresenta um fato único e exclusivo, sempre acompanhado pela peruca loira.
O grupo conta ainda com uma mascote, a galinha Jurema, uma figura estilizada que nos acompanha em todos os momentos, e mantém a tradição do pequeno-almoço realizado todas as terças-feiras de Carnaval na rotunda da Estação, hoje conhecida como Rotunda das Lúmbias.
Qual a história da galinha Jurema?
A galinha Jurema surgiu após uma visita de dois Fundadores ao Carnaval do Rio de Janeiro. No regresso, trouxeram consigo a Jurema, que rapidamente foi adotada por todos os elementos e se transformou na mascote oficial do grupo.
Como é feita a seleção do tema anual do grupo?
O processo de seleção da máscara anual está definido no Regulamento Interno e começa com a realização de uma Assembleia Geral, onde os associados apresentam as suas propostas para o Carnaval seguinte. Todas as ideias vão a votos e as duas mais votadas passam à segunda fase. Nesta fase final, os elementos presentes voltam a votar, sendo escolhida a proposta com maior número de votos. A partir desse momento, inicia-se o processo de confeção, que inclui o ajuste do design, a seleção dos tecidos, das cores, dos acessórios e a produção final do traje.
Que impacto consideram que o Carnaval tem na vida cultural de Torres Vedras?
Na nossa opinião, o Carnaval é parte integrante da vida social e cultural de Torres Vedras e tem hoje também um fortíssimo impacto económico. Vive-se fervorosamente, prepara-se com enorme antecipação e junta em 6 dias todos os Torrienses em torno de uma “causa comum”. Faz esquecer divergências, promove o convívio, vive-se em momentos de plena alegria.
No entanto, o tema faz parte das conversas ao longo do ano, seja contando histórias de datas anteriores, seja planeando o que vamos fazer no próximo ano.
O Carnaval é uma das datas pela qual todos os Torrienses anseiam. O Carnaval mistura-se com a cultura de Torres Vedras de forma diríamos que umbilical.
Existe alguma história engraçada que represente o grupo?
No âmbito das Lúmbias existem (como imaginam) várias histórias engraçadas. Diríamos mesmo várias dezenas (até mesmo centenas) de histórias que cabiam nesta descrição, mas vamos tentar selecionar aquelas que podem ser mais facilmente partilhadas.
Uma delas trata-se de uma curiosidade que nos enche a todos de orgulho: o facto de termos o legado familiar presente no grupo. Sim, podemos orgulhar-nos de contarmos nos dias de hoje com três sócios que representam três gerações da mesma família: o avô, o filho e o neto.
Outra das histórias que guardamos também com muito carinho é a construção da “nossa Rotunda”, que começou com dois dos nossos associados a “fazer tempo” desde a folia da madrugada até ao horário do corso de terça-feira. Porque o corpo precisava de algum descanso, e o sol soalheiro da manhã o aconselhava, estes dois elementos pediram duas cadeiras e foram descansar no centro da rotunda da estação. Não se tratou de grande descanso porque rapidamente deram por eles a cumprimentar e acenar a todos os carros que passavam. Isto foi o lançamento da primeira pedra.
Ao longo dos anos seguintes os elementos presentes nesse espaço cresceram exponencialmente, até que se justificou a realização de um churrasco para alimentar os convivas. E foi assim que nasceu uma tradição do nosso Carnaval. O já famoso e típico pequeno-almoço das Lúmbias na rotunda da estação, hoje conhecida como Rotunda das Lúmbias, na qual nos foi gentilmente cedida pela Câmara Municipal de Torres Vedras a possibilidade de decoração com o nosso logotipo institucional e que junta anualmente centenas de participantes que nos acompanham até ao início do corso.
Existe ainda uma outra curiosidade que é motivo de satisfação para as Lúmbias e que gostávamos de partilhar: a nossa visita ao Carnaval da Figueira da Foz. Uma oportunidade que surgiu após o adiamento do corso de terça-feira (em Buarcos) e que nos permitiu, uma semana após o términus das festividades em Torres Vedras, deslocar 3 dezenas de foliões, o nosso carro e reboque e mostrar fora de portas a cultura Torriense.
E acreditem que foi uma experiência inesquecível. Queremos acreditar que para nós e para as gentes da Figueira da Foz foi um dia de folia, mas acima de tudo de partilha cultural.
Qual é a mensagem que a associação gostaria de deixar às novas gerações sobre o Carnaval de Torres Vedras?
A principal mensagem é um convite claro para que todos visitem o Carnaval de Torres Vedras, que conheçam as tradições e que se deixem contagiar pela folia, pela animação e pela alegria que fazem desta festa uma das mais marcantes do país.
